La Straniera

 

Amanda Knox, estudante americana em Peruggia, foi acusada de participar de um ritual de sexo e drogas com seu namorado, que teria resultado no assassinato de sua companheira de república, a britânica Meredith Kercher. Ambos foram condenados a 26 anos de prisão, em 2009. Esta semana, o caso esteve de volta às manchetes inglesas, americanas e italianas, com o julgamento da apelação de ambos. Knox e Raffaelle Sollecito, seu namorado, para o que conta no momento, foram libertados.

No curso do processo, Knox teve sua vida devassada e todos os seus gestos interpretados da forma mais horrenda possível. Tudo que para ela parecia normal ou divertido passou a ser visto como demonstração cabal de uma personalidade dividida, cínica, um monstro de duas caras, sem sentimentos. Esse arquétipo aproxima Amanda Knox de Meursault.

Meursault, o protagonista de O Estrangeiro, obra prima de Albert Camus, também achara muito natural não exprimir sentimentos diante da morte da mãe, assim como era natural o modo como tratava a cada um que conhecia. Mersault um dia, após uma briga inconsequente, matou um árabe sob o torpor de um sol de fim de tarde numa praia da Argélia. A partir daí, toda a cidade passou a interpretar os gestos e as atitudes de Meursault como sendo obviamente típicas de um monstro. Um monstro como aquele em que a Itália transformou Amanda Knox, com base nos seus modos – reinterpretados milímetro a milímetro.

Meursault, ao menos, matou de fato o árabe. Já Amanda – assim como Raffaelle - foi condenada por provas circunstanciais.  

Quando foi acusada, Amanda tinha vinte anos. Para repetir Paul Nizan, amigo do mesmo Camus que nos mostrou o que é ser estrangeiro: “não me venham dizer que é a mais bela idade da vida”.

 

Haikai Interativo - Pontue a gosto

Alface maçã

Passas ao lado da torre

Dança o chafariz.

The #iRecallers

The Euro-Arab Spring that pollinate revolts from Tunis to Paris is the ultimate offspring of the Tech-Revolution: The Isegoric Recall.

#IsegoricRecall is a form of change in government by way of direct democracy mediated by social media.#IsegoricRecall is what happened in Egypt, Lybia, Syria, Tunisia, and now erupts in Spain, France and Greece. #IsegoricRecall has been catapulted from social distress to mass movement by force of interaction through social media.

#IsegoricRecall is showing to be a disarchist, leaderless movement carried on by the strenght of vocalized equality provided and fed by social media. 

#IsegoricRecall is disarchist in the sense that it is against an extant govern, not govern itself (not “anarchist”). They show they are in power, regaining the origin of the mandate conceded to those ruling the country. Their power is that of simply stopping.

The process of recall is ordinarily based in the rule of law and has to follow certain proceedings; whereas the #IsegoricRecall is shapless and built up off the rule of law, by the ultimate rulers - the people exerting their right to speak at the agora, the quintessential public environment: the squares.

If the people stop on, the government steps down.

Those who are joining #IsegoricRecall movements anywhere could be, therefore, called the #iRecallers.

Caio Leonardo

Duplo Mortal no Lago

 

O nome do rapaz já era a encruzilhada de dois mundos desalinhados: sua identidade começava em Abbey Road e terminava no Tucuruvi. John Lennon da Silva é esse cidadão invisível de corpo esquálido que foi à televisão para se testar num reality show para dançarinos, e desconcertou a todos com sua dança de rua. O rapaz foi lá vestido do seu dia-a-dia, camiseta e jeans e tênis, que é o que se pode esperar de quem dança o que ele dança. Mas por estar vestido assim - onde figurino importaria - foi recebido com uma bofetada pela loira bonita de sotaque estrangeiro que estava lá para isso mesmo, julgá-lo. “Nada a ver” essa roupa, ou algo assim, disse ela. Mas esse garoto da periferia não usa gíria para falar da sua street dance. No inevitável “making of” que reality shows despejam para dar tempero ao quiabo que servem, o Sr. Lennon da Silva revelou ser o usual fascinado com o que pode fazer e criar. Tem 19 anos, quer ganhar o mundo - deixa ele. Mas John mostrou ser mais do que um scugnizzo, no que subverteu a rotina de gestos suaves dos grandes teatros, das grandes companhias de dança; no que ousou pedir a palavra no jantar de gala dos grandes balés: o garoto coreografou a morte do cisne com passos de street dance. E com que impacto, com que dor, ele fez isso.

 

O Lago dos Cisnes é a consumação do mundo traiçoeiro das sapatilhas que escondem a violência contra a juventude em busca do sublime, violência fisicamente dolorosa, das dores dos pés deformados pela prática torturante das pontas. Mas o Sr. Da Silva traduziu esse mundo de sonho e pesadelo (de dor escondida e morte estilizada) para o universo de gestos cerrados, entrecortados, mal acabados, tétricos daquele pesadelo em vigília que é periferia de São Paulo, onde a dor é escancarada e a morte, bem, a morte é ela mesma.

 

A Zona Leste é terra de outras pontas, na outra ponta da cidade sem fim nem cultivo, onde outra juventude vive a tortura que não é metáfora, onde a dor violenta que sentem não é busca, nem escolha, mas rotina imposta: a rotina da sobrevivência em que não é a carreira que está em jogo, mas a vida. A Zona Leste é a antítese das sapatilhas. Sapatilhas deformam pés para construir destinos; a periferia de São Paulo deforma não apenas pés, mas destinos. O mundo do balé calça sapatilhas, sinônimos de delicadeza; o mundo do street dance calça tênis, gíria da bandidagem para arma de fogo.

 

Pois aquele garoto franzino, mas com um propósito, verteu o sangue de um mundo no sangue do outro mundo, sem perder a leveza da bailarina, sem trair a rua nem o boombox.

 

E foi mais cisne que os cisnes da outra ponta. Foi, sim. Mas neste mesmo fevereiro em que escrevo, outro cisne parece atravessar toda e qualquer conversa.

 

Natalie Portman adquiriu uma grandeza com Black Swan que poucas atrizes alcançaram. Óbvio que não é beleza ou carisma, apenas, mesmo que seja impossível não registrar que ela está mais bela do que nunca, seu rosto esculpido, quase sextavado de tão anguloso em algumas tomadas, e ainda assim doce – forte, poderoso, doce. O controle de gestos e expressões que ela desfia quadro a quadro é a celebração da sua própria maturidade. A Srta. Portman oferece densidade trágica potencializada pelo transe da sua personagem que atravessa o abismo fazendo ponta sobre a fio da navalha que marca o limite já transposto da psicose.

 

Como dialogam os cisnes de Portman com o de John Lennon da Silva? O cisne de Mrs. Portman sai da sapatilha para se aninhar em suas vísceras, e o cisne nela entra pela ponta de um caco de espelho – espelho, esse símbolo do duplo, duplo que pervade toda a trama de Black Swan: o duplo do cisne negro e do cisne branco, antagonistas até a morte.

John Lennon da Silva soube apropriar-se do mesmo duplo, o branco e o negro, e o fez, não tem outra palavra, genialmente: nunca Tchaikovsky embalou uma dor daquele tamanho. O cisne de Portman vai de fora para dentro, uma fêmea à procura da sua sensualidade imanente, uma procura imposta pelo papel a ser desempenhado no palco, logo uma procura indesejada, perturbadora.

 

Já o duplo que se agita no lago onde morre o cisne de John Lennon da Silva é um que vem de dentro para fora do garoto-artista: resulta do confronto da sua intimidade com seu meio, do ser dançarino e do ser da Zona Leste. Ele é um tradutor, ocupação que é, em si mesma, um duplo. Mas sua arte não está em traduzir alta cultura para sua gente; mas sim em verter, para a alta cultura, todo o poder expressivo da dança de rua. Ele não levou a morte do cisne ao Tucuruvi: ele levou a alta cultura para um passeio numa cidade invisível, e Balanchine teria voltado extasiado de lá.

A personagem de Portman se debate intimamente com seu duplo, numa luta esquizofrênica pela construção do negro (sensual) e do branco (virginal) num só cisne. O dançarino da Silva trava outra luta, centrada e consciente, para se fazer entrar nesse lago de cisnes, de cisnes brancos, para mostrar que ele, negro, também é cisne.

Street Dance Wax Romantic: World, meet Break Swan.

Dois Haikais depois do Sakê

Polir o koji;

vapor no shubo; filtrar

maromi: e higa!  

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Ikura e kan.

Remar, ler e dobrar sinos:

a tarde fermenta.

 

 

O jardim e a foice


Laços fora, soldados! As cortes querem mesmo escravizar o Brasil. A voz rouca não alcançava nem a primeira fila, lá embaixo, onde deviam estar o Paulo Rogério, o Julio, o Maciel, a Roberta, a turma toda me vendo lá em cima, no palco, sem voz, de espada em punho, chapéu de bico e tudo, o Dom Pedro I do Raquel de Castro Ferreira da São Vicente de 1974. Por essas e outras, não fui incluído entre os alunos ilustres no jubileu de ouro da escola, em 2008. Mas o Tércio, que também estava por ali, foi. Ele hoje é prefeito, reeleito!, da São Vicente do Raquel. E eu, hoje, na Brasília de Lula, não sou nada e fui ao desfile de sete de setembro com a Caroline. Tirei fotos. O Lula também estava no palco dele, com a voz rouca que é dele, faixa no peito e tudo, mas não tinha chapéu de bico. Nem espada. Nem a turma lá embaixo rindo, como riu de mim, até a diretora mandar todo mundo calar a boca, que era Dom Pedro.




Noutro sete de setembro, desfilei. Mas foi antes. Ainda estava no Grupão, que nem escola mais é. Virou secretaria, alguma coisa assim. Na minha turma tinha uma menina que gostava de falar o nome inteiro dela, que acabava com Fittipaldi. Em 1971, mesmo em São Vicente, ser Fittipaldi era coisa grande. Eu era filho do prefeito, o que também era coisa grande. Por isso, a turma do segundo ano gostava de querer me bater. Prática democrática, especialmente em tempos obscuros, isso de bater nos filhos do poder. E nem eles, nem eu sabíamos o que era Arena ou MDB. Pra mim, MDB era uma coisa verde, surda, acho que porque não tinha vogal; Arena era uma coisa esbranquiçada. Me lembrava praia. Meu pai era da Arena, mas a gente não falava dessas coisas aos seis, sete anos.

No sete de setembro em que meu pai era prefeito, e de que eu me lembro, lá estava eu de uniforme mais uma vez. Tia Carminha tinha comprado um quepe e um coldre e uma coisa que era uma arma, acho que tinha um cacetete, também. Ah, a doçura da infância! Fui ao desfile todo paramentado. A gente ficou na rua, mesmo. Não tinha palanque – ou, se tinha, nem minha mãe, nem eu estávamos lá. Vi passar o exército, tun-tum-tchi-tun-tun-tun…, e lá fui eu pra frente da tropa, marchando que nem eles.

Acharam lindo. Porém, era 1972. 

Nessa época da minha infância, a memória dos meus ouvidos me conta que “Independência” era pronunciado rápido, ao som do repique que preparava a entrada de duas fortes batidas do bumbo: “ou Morte!”. Uma voz solitária gritava “Independência!”, e o coro respondia “ou Morte!”. Era uma ameaça, não um grito de liberdade. E aí vinha a banda e os uniformes e o passo firme sobre o chão escaldante.

Quando passei a falar desse tempo com meu pai, eu já no Largo São Francisco, onde essas ingenuidades não duram muito tempo, soube que o velho Jonas, no caminho de casa até a prefeitura, recebia das mãos do seo Domingos, o chauffeur, a edição clandestina da Voz Operária, embrulhado no São Vicente Jornal. Meu pai revelou, a mim estudante de Direto, que ele, antes de ir para a Arena, tinha sido vice-presidente da União Internacional dos Estudantes, que tinha ido à Tchecoslováquia na década de 1950, que lá conhecera Ilya Erenburg - e Lida, a motorneira tcheca com quem nadou nas águas do Vltava, para ciúmes eternos de dona Laura. Houve uma virada, e ela veio quando da sua visita àquilo que chamavam com voz tenebrosa de Cortina de Ferro…

Foi meu pai quem me apresentou Caio Prado Junior, lendo para mim extensas partes de Dialética do Conhecimento, numa edição que minha memória traidora me diz que era elegante, de capa dura, verde, letras douradas. Tenho até hoje, nalgum lugar, uma edição rota de “Así se templó el acero”, de Nicolai Ostrovsky, que ele trouxera do lado de lá da tal cortina, e que lhe teria custado muita dor, se o tivessem encontrado naqueles tempos.  E foi por pouco.

Ele, prefeito, foi “denunciado” pelos irmãos Horneaux de Moura ao Exército, pelo que foi chamado a dar explicações ao comandante do 2º BC. Queriam saber o porquê de ele ”ter ido a Moscou” e de a Irmãos Rodrigues publicar anúncios na Voz Operária (ou noutro veículo de esquerda da época). Irmãos Rodrigues era a fábrica de urnas funerárias da família de meu pai. Uma loja ficava quase ao lado da prefeitura. Nela, se lia: Serviço Funerário Central - SFC. Não por acaso a sigla de Santos Futebol Clube. Meu pai não me contou o que tinha conversado com o comandante. Apenas que discutiram visão de País, que tinha ido a Praga, não a Moscou, e como estudante, nada mais, e que isso teria bastado para lhe darem trégua. Era um homem muito sério e circunspecto, de modos gentis, quase britânicos, com o inevitável cardigan - no calor que fizesse. Não tinha o perfil que os preocupava.

Embora distanciado do debate e da ação das esquerdas, meu pai morreu stalinista. Afastou-se, por causa do que viu para além da tal cortina. Resolveu mudar-se de São Paulo para São Vicente, e separar, de um lado, o seu jardim, e, de outro, a General Jardim, onde fervilhava sua “alma matter”, a Escola de Sociologia e Política, de colegas como Plínio de Arruda Sampaio, de professores como Florestan Fernandes. Quem só conheceu o Jonas Rodrigues de São Paulo não reconhece o de São Vicente. Quem conhece o de São Vicente, sabe apenas que ele foi da Arena para o PDS, do PDS para o PP, que foi prefeito duas vezes e, talvez, que a Oposição o chamava de “prefeito papa-defunto”. Quem só sabe de sua vida em São Vicente, não sabe que, nas curvas dos anos de chumbo, ele operou para que ferroviários no Vale do Ribeira pudessem escapar da repressão. Que tentou, em vão, convencer Rubens Paiva a sair do país em tempo.

Houve mortes e houve gritos de liberdade desde então. Hoje sei o fracasso que foi não ter insistido em saber detalhes da conversa de meu pai com o comandante. Fracasso ainda maior do que aquele do meu sete de setembro como Dom Pedro. O vexame que foi aquilo. Cheguei em casa, subi correndo as escadas, me fechei no quarto e a espada me espetou a barriga quando pulei de cara na cama, chorando feito a criança que era, ainda em trajes de defensor perpétuo da pátria. 
  

foto: caio leonardo

Pietá

Stabat mater
dolorosa

Jeanne aprés Modigliani -
La muse et la fênetre

Giulietta doppo Fellini -
Un dolore più forte
di quello di Cabiria

Drummond depois de Maria,
também ela Julieta -
a pessoa que mais amei neste mundo

And Juliet, the icon
left with no friendly drop
to help her after - after Romeo
Poison and dagger -
O happy dagger!

Acorda!
que o cortejo dos amores trágicos
não cessa e
bate à porta
dum pendebat filius

Primeiro foi Djalma,
aquele coração
que era um balde despejado
- e agora Olívia,
juxta crucen lacrimosa.

Acorda!
que o cortejo dos amores trágicos
não cessa

Ma
sina,
Giulietta:
Morrer de amor,
A mais bela morte.

Mas como dói em nós outros
a dor mortal que os levou de nós
e um do outro.

Duas inscelências
entrando no paraiso
Dry martini em punho -
Here’s to my love! -
e nós aqui,
como uma banda em Nova Orleans
no ofício de um jazz funeral,
cabírias nós todos
entre um trompete e o bumbo,
a dor e a melodia
a lágrima e o alento
o bourbon e a rua.


caio leonardo

7.5.2009, publicado antes em 6loggers.com

Um estrangeiro

Ele passou pelas portas de vidro e pelos manequins de boné e pelas pranchas de surf e pelos óculos escuros e pelos chinelos e pelos sorrisos de vendedor e pelo balcão, então ele entrou na varanda de telhas expostas e toras de madeira que são as vigas e os baldrames que sugerem praia. Ele contemplou sorrindo o lago e ouviu Donavon Frankenreiter e logo veria Jack Johnson e Kelly Slater e Laird Hamilton sem saber quem é quem nas caixas de som ou nas telas de cristal líquido penduradas no teto e nas toras. Ela disse Oi, cara, e aí? Ele nunca é chamado de cara e a coisa toda soou artificial como uma cabana de surfistas diante de um lago. De um lago no meio de uma cidade no meio do nada. Uma cabana de surfistas diante do lago Paranoá, em Brasília.

Ele gosta de lá mesmo assim. Apesar da coisa adolescente assim, e do sorriso treinado da hostess que é quem diz oi, cara para todos que chegam. Ele é um estranho habitué com aquele paletó de rami e algodão.

Embaixo do sorriso treinado dela, um sorriso de verdade. Primeiro a obrigação, depois o prazer. A hostess bem pequena explodia de energia e hormônios algemados em timidez. Ela levou o homem de paletó claro até a mesa do canto da varanda com vista para o lago. Ele disse alguma coisa gentil. A garota se desconcertou. O treinamento é para ser gentil, não para receber gentilezas genuínas.

Ele se acomodou e deixou o livro sobre a mesa. Trocou os óculos escuros pelos de grau. Pediu o cardápio. Sempre pedia a mesma coisa. Ele ia pedir a mesma coisa: missoshiro, combinado mormaii, marverick’s. Ele gostava de ler o cardápio. Ritual. Ele gostava de não ter que se preocupar em pensar no que comer. Mas é preciso ler o cardápio para entrar no mar e no neoprene. Ele sempre pedia o mesmo. E pediu.

O sol estava alto. Quando baixasse, iria entrar retina adentro como um soco. Ele estava lá para comer e para ver o sol baixar e sentir aquele soco.

Abriu o livro depois de pedir. Era Cormac McCarthy, The Road. O barulho em volta era de adolescentes paquerando e de casais de primeiro encontro. Todos os encontros ali pareciam para ele o primeiro e o único. Rituais de sedução que se encerravam em si mesmos. Passo a passo até o sexo e o vazio do dia seguinte e o recomeço do jogo com outros contendores.

Rituais fátuos diante do lago e da ostentação das lanchas que fazem a maldição de Brasília. Ilha da Fantasia. Iates e veleiros e esportes de água e céu e status. Novos ricos e velhos corruptos. Sinais exteriores de riqueza.

O rapaz na mesa em frente à escada que dá para o deck que dá para o lago olha para a água do lago remexida pelo jet-ski, e aponta o dedo como quem oferece à menina ao lado um sonho. Um sonho que é o dele, e que se realiza lago adentro em alguém que não é ele. E ele oferece o jet-ski aos olhos dela como se fosse ele e dele.

O homem do paletó desestruturado ajeita o lenço no bolso do paletó e resolve tomar sakê antes da vitamina de banana açaí e aveia. Mavericks. Duas moças bem altas e bem vulgares passam com imensos óculos escuros e minúsculos shorts brancos. Tamancos com salto de acrílico. Não precisa de maquiagem para completar o quadro. A maquiagem está lá do mesmo jeito. Coleção de erros que as sustenta. O homem do lenço na mesa do canto olha para elas e as detesta imediatamente.

O homem tira o iPhone do bolso, checa seu e-mail, lê notícias, checa seu e-mail. Mexe no bolso do paletó de dois botões e tira de lá o moleskine surrado. Tenta tomar nota de alguma coisa, não consegue notar nada. Writer’s block. Guarda o caderno no bolso, tampa a caneta onde se lê Instituto Internacional de Estudos de Direito do Estado, estudos que nunca fez, caneta tomada do vizinho professor em outro domingo, quando então não estava sozinho. Ele pega de volta o iPhone e tenta baixar alguma coisa de Salinger no e-reader. Não consegue. Nunca consegue. Ele tenta ser um homem do seu tempo, mas já faz tempo demais que é homem e não há mais como ser atual nestes tempos sem dono.

Chega o sakê, e seus olhos dão outra volta pelo lugar, procurando. Ele nunca sabe o que procura. Seus olhos procuram do mesmo jeito. Assim como procura Fitzgerald ou Ford Maddox Ford no e-reader do mesmo jeito. O jogo de espelhos no nome de Ford o intriga, não sua literatura, que ele não conhece. Ele conhece os outros que invadem sua imaginação e o fazem querer notar coisas, tomar notas. Mas não consegue. Procura no stanza, no e-reader, no bookreader. Sem saber como. Quando olha, não sabe o que procura; quando sabe o que procura, não sabe como olhar.

Varanda aberta para o lago, madeira e cordas, uma praia no cerrado. A varanda oferece aos olhos de quem está nas mesas o deck que dá para o lago e o lago e a ponte Costa e Silva. E o deck e a varanda se enchem de gente e de carrinhos de criança e de famílias e de amigas que passeiam. Passa uma embarcação, lenta e ruidosa, uma chata transformada em pista de dança. Rapazes dançam na chata. Os rapazes olham de dentro da chata para a varanda, onde estão as mesas, onde estão o lenço e o sonho do jet-ski e os tamancos de acrílico, e os rapazes que dançam na chata viram-se de costas, arregaçam as bermudas e mostram a bunda para os da varanda. Ninguém se surpreende ou se anima ou se ofende. O homem do lenço no bolso do paletó na mesa do canto chega a pensar em pegar a máquina fotográfica. Não pelas bundas, mas pela chata. Uma celebração do mau gosto, armadilha flutuante inescapável – caveat emptor.

A graça de fotografar está em descobrir o inédito. Não há nada de inédito em adolescentes querendo feder a dinheiro, que mostram a bunda para dizerem para si mesmos que mostraram a bunda. A circularidade das bundas expostas, sempre de volta a si mesmas, o desmundo das inside-jokes, o não-conteúdo das amizades daqueles para quem amizade é ter com quem fazer barulho. Matilha.

Ele não gosta de fazer barulho por fazer. Costuma andar só pela cidade, sempre em lugares barulhentos, para que não precise contribuir com o barulho só por contribuir. Melhor não escutar, melhor não dizer. Dancem, pulem. Deixem seus corpos falarem a verdade sobre suas intenções. Eu ouço, eu leio seus corpos. Melhor do que ouvir o que não têm a dizer.

O homem da mesa no canto sob o xaxim com uma samambaia que chora sobre sua cabeça toma essas notas confessionais. O barco vai embora sem comover. A graça da coisa toda só para os rapazes mesmos. O homem do paletó sobre camisa branca volta para seu livro, e submerge. Emerge com peixes fatiados aterrissando sobre o tampo de pedra polida preta, entre tufos de fios brancos e lascas cor de um caramelo esmaecido e molhado. A mesa se enche de cor. Ele pega o shoyu e derrama o shoyu sobre o receptáculo de shoyu. Ele pega wasabi e mexe o wasabi no shoyu. De novo lembra que devia ter posto o wasabi no receptáculo de shoyu antes de por o shoyu no receptáculo de shoyu. Isabela que ensinou. E ele nunca aprende.

Ele pega o hashi e segura o hashi como se segura um hashi e se serve de salmão primeiro. O maior prazer primeiro. Ele só vai pegar outro salmão depois de comer de todos os outros. O maior prazer é também o último. Atum, robalo, polvo. O combinado não é muito sortido. Ele sabe mas aceita. Em Brasília não há um bom restaurante japonês. Aquele tem a vista do lago, sempre atrapalhada pela presença desagradável dos jecas que medem sua hombridade em pés e milhas náuticas.

Hora do soco. Ele põe os óculos escuros e deixa os olhos entrefechados. Ele sente o peso do Mavericks descendo para o estômago. Ele prova um Califórnia roll intragável. Ele pega uma porção nada pequena de gengibre e salva seu paladar. Ele larga o hashi encostado no receptáculo de shoyu, suja o punho da paletó e solta um palavrão lá dentro de si. Ele pega uma porção de fios brancos e esfrega nabo no punho. Ele limpa as mãos no guardanapo de papel. Ele larga o guardanapo de papel e pega o livro e se recosta.

Ele lê. Lê até a parte de trás de sua língua pedir mais peixe e wasabi e shoyu. O sol desce arcano sobre seus olhos. Ele franze a testa e arreganha as bochechas em defesa contra o soco de luz. Ele se compraz de sentir o calor do sol no rosto e de não enxergar nada que não sejam os pés lucífugos que pulam no espelho ondulante do lago. Kinch, seu jesuíta execrável! O Paranoá é o Liffey; ele, um Stephen que sorri com a visita inesperada de Buck Mulligan, que desaparece para dar lugar ao pai e ao filho de The Road. Father. Yes, son. I want to kill you. Morrison, Cat Stevens. O Teddy de Salinger. Pais e filhos. Jonas. Ele navega num mar de referências e se perde nas linhas de MacCarthy.

É noite fechada quando ele volta a si, órfão. Ele volta a si sem ter achado o que só seus olhos sabem que procuravam. Procuravam e procuram no livro e na mesa, no celular, na varanda de madeira e cordas, no deck, no lago, não nos barcos, no outro lado do lago, no horizonte escuro e na lua que ele não vê, que não é ela que ele procura, é nela, nela e no planalto que ele procura, e no cerrado, no Brasil, e no mundo. No céu. Órfão.




caio leonardo

2.6.2009. Publicado antes em www.6loggers.com