Ele passou pelas portas de vidro e pelos manequins de boné e pelas pranchas de surf e pelos óculos escuros e pelos chinelos e pelos sorrisos de vendedor e pelo balcão, então ele entrou na varanda de telhas expostas e toras de madeira que são as vigas e os baldrames que sugerem praia. Ele contemplou sorrindo o lago e ouviu Donavon Frankenreiter e logo veria Jack Johnson e Kelly Slater e Laird Hamilton sem saber quem é quem nas caixas de som ou nas telas de cristal líquido penduradas no teto e nas toras. Ela disse Oi, cara, e aí? Ele nunca é chamado de cara e a coisa toda soou artificial como uma cabana de surfistas diante de um lago. De um lago no meio de uma cidade no meio do nada. Uma cabana de surfistas diante do lago Paranoá, em Brasília.
Ele gosta de lá mesmo assim. Apesar da coisa adolescente assim, e do sorriso treinado da hostess que é quem diz oi, cara para todos que chegam. Ele é um estranho habitué com aquele paletó de rami e algodão.
Embaixo do sorriso treinado dela, um sorriso de verdade. Primeiro a obrigação, depois o prazer. A hostess bem pequena explodia de energia e hormônios algemados em timidez. Ela levou o homem de paletó claro até a mesa do canto da varanda com vista para o lago. Ele disse alguma coisa gentil. A garota se desconcertou. O treinamento é para ser gentil, não para receber gentilezas genuínas.
Ele se acomodou e deixou o livro sobre a mesa. Trocou os óculos escuros pelos de grau. Pediu o cardápio. Sempre pedia a mesma coisa. Ele ia pedir a mesma coisa: missoshiro, combinado mormaii, marverick’s. Ele gostava de ler o cardápio. Ritual. Ele gostava de não ter que se preocupar em pensar no que comer. Mas é preciso ler o cardápio para entrar no mar e no neoprene. Ele sempre pedia o mesmo. E pediu.
O sol estava alto. Quando baixasse, iria entrar retina adentro como um soco. Ele estava lá para comer e para ver o sol baixar e sentir aquele soco.
Abriu o livro depois de pedir. Era Cormac McCarthy, The Road. O barulho em volta era de adolescentes paquerando e de casais de primeiro encontro. Todos os encontros ali pareciam para ele o primeiro e o único. Rituais de sedução que se encerravam em si mesmos. Passo a passo até o sexo e o vazio do dia seguinte e o recomeço do jogo com outros contendores.
Rituais fátuos diante do lago e da ostentação das lanchas que fazem a maldição de Brasília. Ilha da Fantasia. Iates e veleiros e esportes de água e céu e status. Novos ricos e velhos corruptos. Sinais exteriores de riqueza.
O rapaz na mesa em frente à escada que dá para o deck que dá para o lago olha para a água do lago remexida pelo jet-ski, e aponta o dedo como quem oferece à menina ao lado um sonho. Um sonho que é o dele, e que se realiza lago adentro em alguém que não é ele. E ele oferece o jet-ski aos olhos dela como se fosse ele e dele.
O homem do paletó desestruturado ajeita o lenço no bolso do paletó e resolve tomar sakê antes da vitamina de banana açaí e aveia. Mavericks. Duas moças bem altas e bem vulgares passam com imensos óculos escuros e minúsculos shorts brancos. Tamancos com salto de acrílico. Não precisa de maquiagem para completar o quadro. A maquiagem está lá do mesmo jeito. Coleção de erros que as sustenta. O homem do lenço na mesa do canto olha para elas e as detesta imediatamente.
O homem tira o iPhone do bolso, checa seu e-mail, lê notícias, checa seu e-mail. Mexe no bolso do paletó de dois botões e tira de lá o moleskine surrado. Tenta tomar nota de alguma coisa, não consegue notar nada. Writer’s block. Guarda o caderno no bolso, tampa a caneta onde se lê Instituto Internacional de Estudos de Direito do Estado, estudos que nunca fez, caneta tomada do vizinho professor em outro domingo, quando então não estava sozinho. Ele pega de volta o iPhone e tenta baixar alguma coisa de Salinger no e-reader. Não consegue. Nunca consegue. Ele tenta ser um homem do seu tempo, mas já faz tempo demais que é homem e não há mais como ser atual nestes tempos sem dono.
Chega o sakê, e seus olhos dão outra volta pelo lugar, procurando. Ele nunca sabe o que procura. Seus olhos procuram do mesmo jeito. Assim como procura Fitzgerald ou Ford Maddox Ford no e-reader do mesmo jeito. O jogo de espelhos no nome de Ford o intriga, não sua literatura, que ele não conhece. Ele conhece os outros que invadem sua imaginação e o fazem querer notar coisas, tomar notas. Mas não consegue. Procura no stanza, no e-reader, no bookreader. Sem saber como. Quando olha, não sabe o que procura; quando sabe o que procura, não sabe como olhar.
Varanda aberta para o lago, madeira e cordas, uma praia no cerrado. A varanda oferece aos olhos de quem está nas mesas o deck que dá para o lago e o lago e a ponte Costa e Silva. E o deck e a varanda se enchem de gente e de carrinhos de criança e de famílias e de amigas que passeiam. Passa uma embarcação, lenta e ruidosa, uma chata transformada em pista de dança. Rapazes dançam na chata. Os rapazes olham de dentro da chata para a varanda, onde estão as mesas, onde estão o lenço e o sonho do jet-ski e os tamancos de acrílico, e os rapazes que dançam na chata viram-se de costas, arregaçam as bermudas e mostram a bunda para os da varanda. Ninguém se surpreende ou se anima ou se ofende. O homem do lenço no bolso do paletó na mesa do canto chega a pensar em pegar a máquina fotográfica. Não pelas bundas, mas pela chata. Uma celebração do mau gosto, armadilha flutuante inescapável – caveat emptor.
A graça de fotografar está em descobrir o inédito. Não há nada de inédito em adolescentes querendo feder a dinheiro, que mostram a bunda para dizerem para si mesmos que mostraram a bunda. A circularidade das bundas expostas, sempre de volta a si mesmas, o desmundo das inside-jokes, o não-conteúdo das amizades daqueles para quem amizade é ter com quem fazer barulho. Matilha.
Ele não gosta de fazer barulho por fazer. Costuma andar só pela cidade, sempre em lugares barulhentos, para que não precise contribuir com o barulho só por contribuir. Melhor não escutar, melhor não dizer. Dancem, pulem. Deixem seus corpos falarem a verdade sobre suas intenções. Eu ouço, eu leio seus corpos. Melhor do que ouvir o que não têm a dizer.
O homem da mesa no canto sob o xaxim com uma samambaia que chora sobre sua cabeça toma essas notas confessionais. O barco vai embora sem comover. A graça da coisa toda só para os rapazes mesmos. O homem do paletó sobre camisa branca volta para seu livro, e submerge. Emerge com peixes fatiados aterrissando sobre o tampo de pedra polida preta, entre tufos de fios brancos e lascas cor de um caramelo esmaecido e molhado. A mesa se enche de cor. Ele pega o shoyu e derrama o shoyu sobre o receptáculo de shoyu. Ele pega wasabi e mexe o wasabi no shoyu. De novo lembra que devia ter posto o wasabi no receptáculo de shoyu antes de por o shoyu no receptáculo de shoyu. Isabela que ensinou. E ele nunca aprende.
Ele pega o hashi e segura o hashi como se segura um hashi e se serve de salmão primeiro. O maior prazer primeiro. Ele só vai pegar outro salmão depois de comer de todos os outros. O maior prazer é também o último. Atum, robalo, polvo. O combinado não é muito sortido. Ele sabe mas aceita. Em Brasília não há um bom restaurante japonês. Aquele tem a vista do lago, sempre atrapalhada pela presença desagradável dos jecas que medem sua hombridade em pés e milhas náuticas.
Hora do soco. Ele põe os óculos escuros e deixa os olhos entrefechados. Ele sente o peso do Mavericks descendo para o estômago. Ele prova um Califórnia roll intragável. Ele pega uma porção nada pequena de gengibre e salva seu paladar. Ele larga o hashi encostado no receptáculo de shoyu, suja o punho da paletó e solta um palavrão lá dentro de si. Ele pega uma porção de fios brancos e esfrega nabo no punho. Ele limpa as mãos no guardanapo de papel. Ele larga o guardanapo de papel e pega o livro e se recosta.
Ele lê. Lê até a parte de trás de sua língua pedir mais peixe e wasabi e shoyu. O sol desce arcano sobre seus olhos. Ele franze a testa e arreganha as bochechas em defesa contra o soco de luz. Ele se compraz de sentir o calor do sol no rosto e de não enxergar nada que não sejam os pés lucífugos que pulam no espelho ondulante do lago. Kinch, seu jesuíta execrável! O Paranoá é o Liffey; ele, um Stephen que sorri com a visita inesperada de Buck Mulligan, que desaparece para dar lugar ao pai e ao filho de The Road. Father. Yes, son. I want to kill you. Morrison, Cat Stevens. O Teddy de Salinger. Pais e filhos. Jonas. Ele navega num mar de referências e se perde nas linhas de MacCarthy.
É noite fechada quando ele volta a si, órfão. Ele volta a si sem ter achado o que só seus olhos sabem que procuravam. Procuravam e procuram no livro e na mesa, no celular, na varanda de madeira e cordas, no deck, no lago, não nos barcos, no outro lado do lago, no horizonte escuro e na lua que ele não vê, que não é ela que ele procura, é nela, nela e no planalto que ele procura, e no cerrado, no Brasil, e no mundo. No céu. Órfão.
caio leonardo
2.6.2009. Publicado antes em www.6loggers.com